Vozes da Funarte SP

Artes visuais, performance e grafite

Ao longo dos anos 1980, o Espaço Funarte recebeu exposições de fotógrafos e artistas plásticos conhecidos ou em início de carreira. Assim, o espaço, que já se consolidava nas cenas musical e teatral, também marcava presença nas artes visuais. Alguns destaques foram: a exposição de Miécio Caffé, os ciclos de performance e as palestras da série O artista plástico por ele mesmo. Roberto Bicelli e Gyorgy Forrai foram os principais servidores responsáveis pela programação das galerias.

Eu sou poeta. Então, eu participo, desde a década de sessenta, dos movimentos poéticos, de todos esses movimentos poéticos de se dizer poesia em praça pública, Catequese Poética, que foi feita pelo Lindolf Bell. São Paulo era um núcleo muito forte culturalmente. E esse pessoal mais vanguarda, digamos assim, mais atual, que não é o São Paulo das academias… Já é outra coisa, né? De Jorge Mautner para cá,  58, passando por Piva, que já é 62, o Mautner com o Kaos, com o Deus da Chuva e da Morte, que é lá daquela época. Então, esses vários núcleos, muito fortes, de artistas novos e tal, em certo momento eles confluem para a Funarte, que abre a possibilidade de eles se apresentarem (…) Eu cheguei em 84 com projetos, porque a Lulu queria ampliar as ações da Funarte. (…) Tinha a Sala Guiomar Novaes e só, isso era a Funarte; tinha uma livraria, onde é o lobby, ali, tinha a livraria e a Sala Guiomar Novaes, que a Lulu trazia muito bem por sinal. (…) De cara eu abri aqui a primeira exposição, que eu não lembro exatamente, mas posso descobrir, que foi de um fotógrafo do Rio de Janeiro ou de Santa Catarina. Foi a primeira exposição de artes visuais aqui na Funarte.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 21/02/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840221-33426-nac-0018-999-18-not. Acesso em 22 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 15/03/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840329-33457-nac-0023-999-23-not. Acesso em 22 Nov. 2016.

02 de abril de 1984

Gyorgy Forrai foi contratado por Lulu Librandi, indicado por Roberto Bicelli, para trabalhar na montagem das exposições do Espaço Funarte e, mais tarde, das galerias Mario Schenberg e Flávio de Carvalho.

(…) Logo que eu vim, percebi que era impossível montar as exposições que eu pretendia e mais outras coisas se você não tivesse um… Eu percebi que você precisava de gente, precisava de apoio, precisava de uma pessoa, de um faz tudo com capacidade cultural, intelectual… E mais, que soubesse mexer com as coisas, as coisas práticas etc… Então nós chamamos o Gyorgy, o Gyorgy Forrai…. Que foi uma escolha acertadíssima que veio até hoje. O Gyorgy é muito inventivo, então essas galerias tiveram esse suporte de uma pessoa capaz de organizar as montagens, (que) tinha técnica para isso, improvisava quando não tinha condições, e assim foi-se tocando.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Eu vim trabalhar na Funarte na época em que a Maria Luiza Librandi era coordenadora. Um mês antes, ela tinha contratado o Roberto Bicelli, por indicação do Miguel de Almeida, que, na época, estava na Folha (Folha de SP) e era muito amigo da Librandi. Ela precisava de alguém para não sei o que e chamou o Roberto. Aí resolveram montar uma galeria de fotografia. A Funarte (disse) “vai ter foto…”. Tinha os institutos no Rio, de fotografia (…)  Tinha um departamento todo voltado para isso. E eu já tinha um antecedente de trabalhar para artista. O meu pai tinha uma firma, um depósito, na Rua Frei Caneca, na frente da casa do dono das Balanças Filizola, que está lá até hoje, e, no andar de cima, era o ateliê do Aguilarzinho. (…) Então eu vim, orcei, vi tudo o que precisava, projetei… Material de primeira, iluminação profissional, vi como poderia adaptar o sistema, as molduras (…) Ficou tudo muito bom… Eu montei a primeira exposição. Fui contratado. (…) (A exposição era de) Loris Machado, uma fotógrafa. Eram umas ampliações de 50 X 70 (…). Ela perguntou se eu tinha as molduras e me trouxe tudo, sem refinar, sem nada. Ela deixou um pacote com em cima da mesa do escritório. Pensei: “Aqui não tem mesa, não tem nada para montar”. Atrás da loja tinha um espacinho, montei uma mesa, coloquei uma luz, comprei régua de aço e esquadro, que não tinha, para lidar com aquele material caríssimo. Comprei luva, estilete profissional… E montei a exposição da Loris. Funcionou super legal, com iluminação. Na época, umas lâmpadas que eu acho que eram da Philips, que chamam foco elipsoidal, um spot bem compridão, que não deixa mancha. Fotografia tem isso. O fotógrafo pode ser ótimo, mas se tiver uma mancha… Então, é difícil posicionar a iluminação perfeita. Na época, não tinha outra saída. E a Funarte foi comprando sem questionar nada. Tinha que fazer uma coisa que pudesse ser reutilizada.

 

Trecho de entrevista concedida por Gyorgy Forrai a Ester Moreira e Sharine Melo em 26/067/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo,
28/07/1987. Disponível em
http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19870728-34482-nac-0050-cd2-4-not. Acesso em 23 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 23/10/1985. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19851023-33941-nac-0018-999-18-not. Acesso em 22 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 10/07/1986. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19860710-34159-nac-0074-cd2-4-not. Acesso em 23 Nov. 2016.

Então se fazia um júri, também passou-se a fazer um júri de artes visuais, e esse júri foi correndo a vida toda. A gente chamava três, quatro pessoas… Ficava um da Funarte e mais uns três críticos, sempre muito importantes e renomados… E as pessoas concorriam e expunham aqui. (…) Quando se constituía um júri – geralmente era feito um júri –, geralmente era um pessoal como Mauricio Kubrusly, Armando Aflalo, grandes nomes da crítica etc… O Zuza Homem de Mello, eu o vi várias vezes aqui em júris e tal. E aí se formava toda a rede (…) Pessoalmente, eu tenho uma posição (…) De ser mais eclético, você tem que contemplar as várias tendências. E, com isso, na formação do júri, se você bota um júri que fecha, por exemplo, com uma única tendência, você sabe o que vai acontecer… Então eu sempre procurei por um artista de renome (…) E os críticos, né? E sempre evitando aquele crítico muito partidário, em busca da multiplicidade. Com isso você conseguia uma amplitude de ações.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 25/11/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19841125-33661-nac-0046-999-46-not. Acesso em 22 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 06/02/1985. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19850206-33721-nac-0014-999-14-not. Acesso em 23 Nov. 2016.

Tinha um histórico inteiro das exposições todas que foram feitas. Centenas. Coisas preciosas. O ilustrador Miécio Caffé. Eu montei uma exposição aqui para ele. Depois eu mandei fazer uns painéis, que tinham umas chapas grandes de vidro. Eram três chapas, que eu precisei lixar dentro, para “sanduichar” trabalhos inteiros e poder colocar no corredor… Tinha quatro estruturas dessas. Emprestaram para alguém. Isso tinha sobrado. Já era. Não tinha essa coisa de patrimônio (…) Montei a exposição com aquelas caricaturas do Miécio Caffé. Eu tenho na minha pasta. A Tomie Ohtake, que veio visitar a exposição, saiu elogiando a montagem da Funarte (…).  A Funarte ia à casa do artista, tomava um cafezinho, selecionava as obras na sala, experimentava um bolinho, e vinha com tudo debaixo do braço no carro da Funarte. A imprensa oficial fazia os convites, os catálogos…

 

Trecho de entrevista concedida por Gyorgy Forrai a Ester Moreira e Sharine Melo em 26/067/2016.

Miécio Caffé era uma figura muito importante, porque ele fazia cartazes do cinema nacional. Aqueles cartazes maravilhosos que ficavam na porta dos cinemas eram feitos por ele. Um dos artistas que sempre que vinha a São Paulo e que ficava na casa dele, tocando a noite inteira, era o João Gilberto, amigo do Miécio. E eram caricaturas de todo mundo de música, dos mais famosos, do Gil, do Caetano, da Bethânia… Era uma exposição belíssima. E o Miécio vivia com a gente na Funarte. Deve ter muita foto ainda. Talvez eu até tenha.

 

Trecho de entrevista concedida por Myrian Christofani a Ester Moreira e Sharine Melo em 04/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 16/05/1984. Disponível em
http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840516-33496-nac-0015-999-15-not. Acesso em 22 Nov. 2016.

Folheto da exposição de Miécio Caffé, realizada no Espaço Funarte em 1984.


Nos dias 3 e 4 de agosto de 1984, a Funarte SP realizou o Primeiro Ciclo Nacional de Performances. Participaram do evento José Eduardo Garcia de Moraes, Paulo Bruscky, Tomoshigue Kusuno, Edgar Ribeiro, Paulo Yutaka, Carlos Wladimirsky, Rogério Nazari, Artur Matuck, Eduardo Barreto, Guto Lacaz, Os Corsini e Ivald Granato.


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 10/07/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840803-33564-nac-0017-999-17-not. Acesso em 23 Nov. 2016.

Eu vim também com um projeto de artes visuais que o Paulo Herkenhoff, que era o diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas, acatou. E tocamos esse projeto, que foi o primeiro Ciclo Nacional de Performance. Então, era um negócio para valer, tinha Paulo Bruscky (…) Era algo que agregasse, e ficou aqui durante três dias absolutamente lotados, né? Aí, tinha assim o Tomoshige Kusuno, tinha o Granato, tinha o Aguilar, tinha o Paulo Bruscky, que veio do Recife. O Paulo Bruscky não era conhecido, era muito pouco conhecido, mas ele veio e, alguns anos atrás, em uma Bienal, o ateliê dele foi montado inteirinho na Bienal – é uma grande figura da performance e, antes disso, da arte postal. Então, nós fizemos exposições de arte postal. (…) Nós (Bicelli e Herkenhoff) fechamos com isto (catálogo), que depois vocês transcrevem, certo? Artur Matuck é de São Paulo, Wladimirsky deve ter sido indicação do Paulo (Herkenhoff), o Edgar Barreiro, idem, Eduardo Barreto, idem. O Guto Lacaz, eu fiz a primeira apresentação pública do Guto Lacaz, a Eletroperformance, essa que veio para cá depois. Eu fiz no Bar Ponderosa, a convite do Gyorgy, que, na ocasião, trabalhava no bar. Um bar extraordinário, muito bacana, todo feito com dormentes de estrada de ferro. Era uma coisa genial. (…) O Granato foi escolha minha. O Granato já era um cara muito sedimentado, muito forte em São Paulo. Esse José Eduardo Garcia de Moraes é um rapaz de Brasília e ele fazia uma coisa meio mágica, uma coisa extraordinária. Foi muito bonito o que ele fez. Os Corsini, que eu comentei com vocês (…) Quando fui procurar para vocês o artigo do Miguel de Almeida, eu vi que ele pontua exatamente os Corsini, dizendo que foi um negócio extraordinário, que foi um negócio super bacana. (…) O Paulo Yutaka, que era um sujeito genial, com grande pesar eu digo que ele faleceu muito cedo, talvez com 40 anos ou menos. O Paulo Yutaka era do grupo Ponkã, muito ligado ao butô e essas coisas todas japonesas. Ele era um sujeito absolutamente extraordinário e fez uma performance extraordinária. O Rogério Nazari, que é outro, provavelmente, da cota do Herkenhoff, e o Tomoshigue Kusuno, que é de São Paulo e que eu convidei. O Tomoshigue, se dava assim… Quando tinha bienais, se fazia festas na casa do Kim Esteves, principalmente, na Chácara Flora. O Tomoshigue fez uma inesquecível festa japonesa nesse negócio. Não é festa porque está se bebendo coisas, mas o visual todo da festa era uma coisa absolutamente genial. Tomoshigue se apresentou.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Foi uma farra total, o que lá se via! (no Ciclo Nacional de Performances). Aí eu apresentei a Eletroperformance, o meu primeiro espetáculo, que eu já tinha apresentado em dois lugares, e apresentei lá uma terceira vez. Aquilo alavancou um convite: a Sheila Leirner estava na plateia e me convidou no ano seguinte para a Bienal. Na verdade, foi dois anos depois, em 85, foi a 18ª Bienal. Então, foi um degrau bem legal, assim. Depois eu peguei o Marcello Nitsche, acho que a gente fez algumas coisas, não me lembro bem. O Roberto (Bicelli) entrou quando a Lulu Librandi era a diretora… Eu ia bastante lá.

 

Trechos de entrevista concedida por Guto Lacaz a Sharine Melo em 05/05/2017.

Folheto do Ciclo Nacional de Performances, realizado em 1984.

Folheto do Ciclo Nacional de Performances, realizado em 1984.

Fonte: Jornal Primeira Mão, 09/08/1984.

Eu (também) vim com o projeto – que eu até tirei o nome de uma coleção francesa que se chamava O artista por ele mesmo –, eu vim com esse projeto de entrevistar artistas plásticos, e coisa e tal. A gente fazia tudo na raça, não tinha assessor disso, assessor daquilo… Então, às vezes, eram sete e meia da manhã – o negócio começava às nove, dez –  e eu ia buscar alunos de escola. Nós trazíamos alunos das escolas do entorno, da oitava série em diante, chamávamos os artistas, uma lista muito grande de artistas que vieram, artistas importantes como Maria Bonomi, o Granato, por exemplo, que acaba de falecer… O Ubirajara Ribeiro, o próprio (José) Zaragoza, também, mas muito mais, a Renina Katz… Olha, Deus e o mundo, uma série longa que se chamava “O artista plástico por ele mesmo”. Era semanal e eu percebi que não dava para ser semanal, porque a logística era terrível, e aí passou a ser quinzenal. Então, ele contava do processo dele de trabalho e trazia o que tivesse na época, o que ele tivesse. (…) Olha, esse registro é muito, muito precário, porque em certo momento isso foi para o Rio de Janeiro, né? (…) Então, eu vim com outro projeto, que era Música e Letra, chamando os compositores e seus letristas, os músicos…

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 18/10/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19841018-33629-nac-0019-999-19-not. Acesso em 25 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 30/08/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840830-33587-nac-0020-999-20-not.. Acesso em 25 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 18/10/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840607-33515-nac-0018-999-18-notAcesso em 25 Nov. 2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 13/09/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840913-33599-nac-0019-999-19-not. Acesso em 25 Nov. 2016

E o que me orgulha, de toda essa minha passagem pela Funarte, é quando eu estou em uma exposição e chega uma pessoa e fala: foi a primeira oportunidade que eu tive… A gente chega a uma exposição e chegam artistas hoje renomados, como, por exemplo: Márcia Pastore, o Henrique Oliveira, que hoje é um cara absolutamente internacional, Ding Musa, com fotografia… São dezenas de artistas novos que foram aparecendo e que se sentiram abrigados, com possibilidade de mostrar seus trabalhos aqui. Isso é o que mais me orgulha. Se eu chegar num lugar e alguém me disser isso eu ganho o ano.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.