Vozes da Funarte SP

A Funarte na cena alternativa paulistana

Veja também: Artes visuais, performance e grafite

No final da década de 1970 e durante toda a década de 1980, a Funarte SP, especialmente a Sala Guiomar Novaes, foi um palco importante para o movimento musical alternativo de São Paulo, ao lado de teatros privados, como o Lira Paulistana. Artistas como Arrigo Barnabé, Jorge Mautner e Itamar Assumpção iniciaram suas carreiras nesse espaço. A efervescência também era visível na área de artes visuais, que ampliava as experimentações estéticas por meio de linguagens como o grafite e a performance.

Então, eu me lembro que, em 78 eu fui assistir a alguns shows na Funarte. Em 79, a Tetê (Espíndola) e o Lírio Selvagem fizeram uma temporada lá, e eu fui assistir. Eu já tinha ganhado o festival da TV Cultura – isso em 79 – e, no final do ano, ia ter o festival da Tupi. E aí eu ia montar o “Sabor de Veneno”, no começo de janeiro de 80. Mas, nesse ínterim, eu me lembro de ter ido à Funarte várias vezes, com a Tetê.  (…) A Lulu estava lá nessa época, a Librandi, né? Eu peguei a época do Marcelo Kahns também, o Marcelo Kahns também trabalhou lá, na Funarte. Fez uma curadoria, uma coisa assim, (…) acho que em 80. Fizemos vários shows do Clara Crocodilo lá, com sessões duplas e tal, uma sessão extra. Porque lotava demais! Era uma coisa impressionante, viu? (…) A gente ia assistir a shows lá. Eu lembro de ter ido assistir lá ao Tiago Araripe, acho o Papa Poluição, um grupo que também fazia shows lá e a gente ia assistir. Eu fui assistir ao Grupo Um, que era o trio do Lelo Nazário, de música instrumental. A gente ia assistir a muita coisa na Funarte! (…) Quando começou a sair, quando a coisa pegou, aí começou a sair na imprensa. Eu lembro que – eu não acreditava – o primeiro show que eu fiz na Funarte, quando terminou, os caras aplaudiram tanto! Mas eu não acreditava, dizia assim: “P., mas eles gostaram disso!” Tive que voltar cinco vezes, fazer bis!

 

Trechos de entrevista concedida por Arrigo Barnabé a Ester Moreira e Sharine Melo em 27/04/2017.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 25/10/1981. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19811025-32707-nac-0043-999-43-not. Acesso em 30 Out. 2017.

A Funarte São Paulo? Eu me lembro, em 81 ou 80… Na cidade tinha muito lambe-lambe com o nome Arrigo Barnabé… E eu falava: “O que é isso?” Eu não sabia que era um nome, Arrigo Barnabé era muito estranho, eu não sabia que era um nome próprio. E aquilo me chamava atenção: tinha muito lambe-lambe na cidade. Aí, eu estava vendo o Jornal Hoje, e tem sempre uma matéria cultural. A repórter falou: “E aí, Arrigo, o que você tem de novo nesse espetáculo?” Aí, apareceu ele – parecia o Mozart (imita a voz de Arrigo): “O que eu tenho é isso: Acapulco!” E ele botou as duas mãos inteiras (na lente da câmera) ao mesmo tempo. Tinha 3 backing vocals, que eram a Suzana Salles, a Ná Ozzetti e, talvez, a terceira, a Vânia Bastos. Ele falava “Acapulco”, elas falavam “Drive-iiin!” Eu falei: “Eu preciso ver esse cara!” E o show era na (Sala) Guiomar Novaes, e estava lá eu, era o primeirão da fila. E saí tonto de lá: era muito novo o que ele estava mostrando! Falei: “Nossa, que coisa louca, isso!” E eu já estava em artes plásticas – tinha entrado em 78, já estava em artes plásticas fazia uns três anos – e pensei: “Nossa, eu preciso fazer alguma coisa com isso, é muito forte!” Aí eu fiz um objeto, o Fuscão preto – que era uma música que tocava na época – no Acapulco Drive-in. Virou um objeto. Mas aquilo me impressionou muito, eu achava que a música estava muito na frente das artes plásticas – do que eu estava vendo em artes plásticas. Aquela música dodecafônica era muito… Depois, eu vi a Ângela Ro Ro, o comecinho dela, e eu também morria de rir, ela era muito debochada. Eu vi bons espetáculos lá.

 

Trechos de entrevista concedida por Guto Lacaz a Ester Moreira e Sharine Melo em 05/05/2017.


O primeiro (e único) disco ao vivo de Itamar Assumpção, com o grupo Isca de Polícia, foi gravado na Sala Guiomar Novaes, durante os shows realizados de 11 a 15 de novembro de 1982. O trabalho independente recebeu um nome sugestivo: Às Próprias Custas S/AClique aqui para ouvir a gravação.

 


Trecho do show de Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, gravado em 1983, na Sala Guiomar Novaes.


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 03/11/1988. Disponível em
http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19881103-34876-nac-0071-cd2-3-not. Acesso em 18 Nov. 2016.

De Jorge Mautner para cá, 58, passando por Piva, que já é 62, o Mautner com o Kaos, com o Deus da Chuva e da Morte, que é lá daquela época. Então, esses vários núcleos, muito fortes, de artistas novos e tal, em certo momento eles confluem para a Funarte, que abre a possibilidade de eles se apresentarem (…) Aí, por exemplo, aparece o Arrigo Barnabé aqui, o Itamar Assumpção. Isso tudo já é da Lulu (Librandi) mesmo, esse pessoal que depois foi para o Lira Paulistana. Então, são muitos artistas novos. Tinha uma época, isso eu presenciei, já era na gestão do Marcello Nitsche, depois da Lulu – o Marcello foi da época que entrou o Collor… O Tom Zé era um cara absolutamente esquecido, só fazia show na Funarte e no SESC Pompeia. Ele tinha essa abertura no SESC e na Funarte.

 

Trecho de entrevista concedida por Roberto Bicelli a Ester Moreira e Sharine Melo em 01/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 28/01/1988. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19880128-34638-nac-0072-cd2-6-not. Acesso em 30 Out. 2017.

(…) Para eles era interessante porque era uma vitrine. Era, em matéria de música popular, o Lira Paulistana, um espaço que tinha na Teodoro Sampaio, um sobrado velho em que você descia umas escadas… O Gordo, Wilson Souto Jr, mantinha aquilo, e foi super badalado. Era muito normal o Gordo me ligar e falar assim: “Myrian, tem um grupo aqui que vocês não podem perder…” Então, por exemplo, o Grupo Paranga foi prá lá, assim… E muita gente começou ali. Eu lembro que o Arrigo Barnabé, quando fez o Clara Crocodilo, eu fui assistir no SESC Vila Nova, fiquei enlouquecida com o trabalho e falei: “Lulu, a gente precisa trazer o Arrigo para cá”. Quando contei quantas pessoas… Ela falou: “Você tá louca, não vai caber”. E lógico que deu para fazer. Então, era um espaço que tinha gente o dia inteiro. (…) E tinha também um projeto que a gente fazia à tarde, durante as férias, que a gente chamava de Verão Funarte, era para as mulheres que tinham filhos pequenos e não tinham para onde levar e que iam para lá ouvir música. Era uma coisa de muita vitalidade. Não só de música popular, mas também de música erudita, mas isso tudo vindo da Funarte do Rio. E grandes nomes também. A gente teve a comemoração dos 80 anos do Dorival Caymmi na sala Guiomar Novaes, com todos eles: Dorival, Dori, Nana, Danilo.  A Nana fez muito Sala Guiomar Novaes, Clementina de Jesus também fez muito… Isso foi em 79, maio de 79.

 

Trecho de entrevista concedida por Myriam Christofani a Ester Moreira e Sharine Melo em 04/08/2016.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 29/10/1982. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19821029-33019-nac-0018-999-18-not. Acesso em 30 Out. 2017.

A Lulu (Librandi) se aproximou da gente (Lira Paulistana), quando ela soube do teatro, e foi nos visitar um dia. Disse: “Olha, eu sou a animadora cultural da Funarte”. E foi como começou essa aproximação. E eu fiquei impressionado porque eu nunca tinha entendido essa função, a função de animador cultural, né? E acho que ela era, em espírito, uma animadora cultural. Ela vivia a animação cultural integralmente. E não existia SESC nessa época. (…) O SESC Pompéia foi o primeiro SESC que foi feito, mas acho que depois de um ano. E o mais engraçado é que a própria programação do SESC Pompéia era baseada na (sala) Guiomar Novaes e no Lira Paulistana. As pessoas do SESC olhavam o que tinha nos dois espaços e chamavam para contrato. (…) O que é muito interessante nessa época é que, quando a imprensa enxergou que tinha alguma coisa, saindo da Ditadura Militar, já era a transição da Ditadura Militar para outro momento, eles abriram um espaço enorme. O Mauricio Kubrusly abriu um espaço anormal. Inclusive a Rádio Globo, onde ele tinha um programa que só falava disso. Então a gente tinha, em São Paulo, uma projeção… Você abria a Folha de São Paulo – Jornal da Tarde, na época – e tinha quatro fotos de coisas que iam acontecer na semana, no Lira Paulistana. A gente só tinha como concorrência positiva a Funarte e com a Lulu Librandi lá. Porque ela também tinha circulação, a Sala Guiomar Novaes também podia fazer teatro com mais intensidade e tal.

 

Trechos de entrevista concedida por Wilson Souto a Ester Moreira, Sharine Melo e Tadeu de Souza em 07/12/2016.


Outro grupo que se apresentou com frequência na Sala Guiomar Novaes foi o Rumo. Participaram da formação: Luiz Tatit (violão e voz), Ná Ozzetti (percussão e voz), Hélio Ziskind (flauta, saxofone, violão, vocal e voz), Akira Ueno (baixo e percussão), Paulo Tatit (guitarra, violão, baixo e voz), Ciça Tuccori (piano e xilofone), Pedro Mourão (violão e voz), Gal Oppido (bateria), Zecarlos Ribeiro (percussão), Geraldo Leite (voz), Ricardo Breim (piano e teclado) e Fábio Tagliaferri (viola).


Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 04/06/1982. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19820604-32893-nac-0041-tur-3-not. Acesso em 30 Out. 2017.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 01/02/1984. Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19840201-33409-nac-0015-999-15-not.. Acesso em 30 Out. 2017.


Diversos artistas, hoje atuantes no cenário nacional, foram influenciados pela geração dos anos 1980: Bocato, Quartabê, Anelis Assumpção são alguns exemplos de artistas e grupos das novas gerações, que se inspiraram no trabalho de Itamar Assumpção, Banda Isca de Polícia, Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Tetê Espíndola, Língua de Trapo… Foram muitos os músicos que pisaram no palco da Sala Guiomar Novaes e, de uma forma ou de outra, continuam presentes. 


Trecho do show de Bocato, gravado em 2017 na Sala Guiomar Novaes.