Vozes da Funarte SP

O Teatro de Arena Eugênio Kusnet

Na primeira metade do século XX, São Paulo tinha poucos espaços para apresentação teatral. Em 1948, foram fundados o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e a Escola de Arte Dramática (EAD), que iniciou suas atividades no Externato Elvira Brandão, sob coordenação de Alfredo Mesquita. No ano seguinte, a EAD passou a ter o TBC como sua sede. Nessa mesma época, Décio de Almeida Prado, então professor da escola, leu na revista Theatre Arts parte do livro Theatre-in-the-Round, de Margo Jones, em que o autor explicava os fundamentos teóricos do teatro de arena a partir da experiência do Theatre’50, criado em Dallas em 1947.


1951

José Renato, aluno de Décio de Almeida Prado, montou O Demorado Adeus, de Tennessee Williams, primeiro espetáculo de teatro de arena do Brasil.

11 de abril de 1953

Esta noite é nossa, de Stafford Dickens, estreou no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Esse foi o primeiro espetáculo do Teatro de Arena, companhia profissional organizada por José Renato, Geraldo Matheus, Sérgio Sampaio e Emílio Fontana. (MAGALDI, 1984)

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo, 31/07/1953 Disponível em http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19530731-23994-nac-0004-999-4-not. Acesso em 24 Out. 2016.

1º de fevereiro de 1955 O Teatro de Arena foi inaugurado na Rua Dr. Theodoro Baima, 94.

Fachada do Teatro de Arena na década de 1950. Disponível em: http://portudoounada.blog.br/teatro-de-arena-60-anos-por-oswaldo-mendes/ Acesso em 24 Out. 2016.


Quando foi criado, o Teatro de Arena não contava com apoio governamental.


O sistema de sócios auxiliou-nos para o financiamento inicial da adaptação. Mas sustentamo-nos sobretudo do espectador avulso. Como não há qualquer amparo governamental o teatro tem que ser autossuficiente, sem o que fecharia as portas. Atualmente, o público que nos prestigia não permite um elenco além de oito atores. A figuração de A escola de maridos é feita por amadores, com um pagamento mínimo. Pesam muito os impostos e os direitos autorais (embora legítimos), sendo difícil aceitar que se cobre, por um pequeno teatro, a mesma taxa paga pelos grandes. Essas taxas deveriam ser relativas à capacidade da sala. Por isso foi um passo arriscado a montagem da comédia de Molière. O guarda-roupa custou perto de 60 mil cruzeiros. Os empréstimos bancários nos facultaram a realização do espetáculo. Mas pensamos que é essa ousadia que dá sentido ao trabalho.

 

Fala de José Renato, em Um palco brasileiro: o Arena de São Paulo (MAGALDI, 1984, p. 19)

Dezembro de 1955 O Teatro Paulista do Estudante apresentou, no Teatro de Arena, quatro récitas de O impetuoso Capitão Tic, de Labiche. A parceria resultou na criação do Elenco Estável do Teatro de Arena.
26 de setembro de 1956 Estreou Ratos e Homens, de John Steinbeck, dirigido por Augusto Boal.
22 de fevereiro de 1958 Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, estreou no Teatro de Arena.

A partir de 1958, o Teatro de Arena especializou-se na montagem de textos de dramaturgos brasileiros, entre eles Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Vianinha. A crítica política também era uma característica marcante dos espetáculos. (MAGALDI, 1984)


Abril de 1958

Teve início o Seminário de Dramaturgia

17 de março de 1959

Chapetuba F. C., de Oduvaldo Vianna Filho, estreou no Teatro de Arena.

Chapetuba F. C. Foto: Hejo. Cedoc-Funarte. Disponível em http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes Acesso em 24 Out. 2016.


Em 1961, o Teatro de Arena modificou sua linha de atuação. Em vez de se restringir à montagem de textos de autores brasileiros, a companhia passou a incluir em seu repertório obras clássicas e modernas “capazes de interessar a um público popular”. Contudo, a ideia não era reproduzir o estilo europeu, mas nacionalizá-lo. Também se buscava encontrar nas peças “a força de perenidade” que as tornasse contemporâneas. (MAGALDI, 1984, P. 50)


31 de março de 1964 Os militares tomaram o poder no Brasil.
1º de abril de 1964 O Teatro de Arena foi fechado por vários dias e seus principais responsáveis se ausentaram da cidade. (MAGALDI, 1984, P. 50)
2 de setembro de 1964 O Tartufo, de Moliére, estreou no Teatro de Arena, que foi reaberto ao público.
1º de maio de 1965 Estreou Arena conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo. O espetáculo inaugurou uma nova fase do Teatro de Arena, marcada pela produção de musicais. A montagem também fazia uma dura crítica à ditadura militar. (MAGALDI, 1984, P. 50)
Março de 1966 Augusto Boal, Antunes Filho, Walter George Durst, Anatol Rosenfeld, Renata Pallotini, Carlos Murtinho e Walter Negrão participaram da primeira reunião de um novo Seminário de Dramaturgia, em resposta à situação política da época. (MAGALDI, 1984, P. 50)
1967 Foi criado o Núcleo 2 do Arena, que se dedicava a montagens de novos diretores, apresentando obras de caráter mais experimental e com propósitos itinerantes. (MAGALDI, 1984, P. 50)
13 de dezembro de 1968 Foi decretado o Ato Institucional nº 5.

Com o AI-5, a repressão tornou-se mais forte no Brasil. Por serem perseguidos no país, os artistas do Teatro de Arena foram obrigados a apresentar seus espetáculos em um circuito internacional. Em 1969, o elenco apresentou Arena conta zumbi no Saint Clement’s Theatre de Nova Iorque, a convite da entidade Theatre of Latin America. Em 1970, foi realizada uma nova excursão aos Estados Unidos, ao México, ao Peru e à Argentina (MAGALDI, 1984)


2 de fevereiro de 1971 Augusto Boal foi preso. Após um mês no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e quase dois meses no Presídio Tiradentes, o artista foi exilado.
1971 O Teatro de Arena passou às mãos do administrador Luiz Carlos Arutin e do Núcleo, grupo remanescente do espetáculo Teatro Jornal.
1972 O Teatro de Arena foi fechado.
1977 O Teatro de Arena foi comprado pelo Serviço Nacional de Teatro (SNT).
03 de junho de 1977 O Teatro de Arena passou a ser chamado de Teatro de Arena Eugênio Kusnet. (MAGALDI, 1984)

Os proprietários do imóvel não tinham mais interesse naquela locação, preferindo vende-lo. A sala da rua Theodoro Bayma poderia converter-se em escritório da firma ou em supermercado. Após muitos e penosos entendimentos, o Serviço Nacional de Teatro, órgão do Ministério da Educação e Cultura, adquiriu a famosa área. Graças à ação direta de Orlando Miranda, diretor do então SNT, e do Ministro Ney Braga, àquela época titular da pasta da Educação e Cultura, preservou-se um histórico espaço do teatro.

 

Trecho do livro Um palco brasileiro: o Arena de São Paulo (MAGALDI, 1984, p. 97).

O Arena como propriedade do Ministério da Educação e Cultura. Ele é de 1973. Compraram o Arena, primeiro (porque) todos eles tiveram que sair do país, os capos, o Boal etc. Os que eram do teatro. O teatro ficou na mão do Arutin. Luis Carlos Arutin, ator do Teatro de Arena, que repassou o teatro para o Serviço Nacional de Teatro através do Ministério da Educação e Cultura (…). Sempre foi (desde 1973) sede do INACEN, da FUNDACEN, do SNT (…). Tem episódios incríveis com relação ao Arena. Por exemplo, na época do Fernando Henrique, a gente começa a fazer aqui em São Paulo um movimento que nasce um pouco mesmo da gente, gente de teatro, gente daqui da Funarte, chamado Arte contra a Barbárie, que é uma coisa que faz parte da história hoje. (…) No fomento, no VAI, no PROAC, tudo isso é filho disso. Mas a gente nunca pensou nisso. A gente pensou que era um movimento anti-lei Rouanet…

 

Trechos de entrevista concedida por Marco Antônio Rodrigues a Ester Moreira e Sharine Melo em 05/08/2016

Seguir para: As instituições e as políticas culturais no Brasil

Voltar para: A Escola de Aprendizes Artífices e o Ministério da Educação e Cultura