Vozes da Funarte SP

Thabata

Oi, mãe,

Como estão as coisas por aí, como vc está, tá conseguindo se cuidar ? (…)

Aqui tá tudo bem, apesar de tantas muitas sds, apesar da tua falta …

Duda bem, gatos bem, famia, amigos bem, biblioteca parece q tb …

Tem um grupo de permacultura lá fazendo uma horta … daí toda vez q vou jogar uma casca de banana fora aqui no trabalho lembro disso e tb q poderia voltar a ideia q tiveram durante a ocupação, de fazer compostagem, naquela área bem bonita e frescosa de jardim com árvores q tem na frente do prédio do Minc …

Aliás, o ambiente aqui é uma das coisas de q mais gosto … como na USP, q tb tem um tanto de árvores, natureza pelo caminho, aqui tb tem sempre a natureza falando com a gente, é uma folha q cai, um passarinho q atravessa voando por cima, uma flor q desabrocha … isso não tem a ver em si com o trabalho – q quem gostava de cuidar de plantas era tu, me falta jeito, até pra cuidar de mim, neh … – mas eu acho q influencia bastante, no clima, no nosso estado de modo geral …

E tb influencia um tanto o entorno, eh um diário rasgar do coração essa cidade da garoa com sol escaldante e noite friorenta … mas disso sabe mais deus, eu sei eh nada …

Soh sei q ainda acho bom trabalhar na área de cultura, como servidora pública, acho q eh um dos jeitos q se criou pra gente se sentir útil, q acho q não tem nada q nos faça sentir mais útil, nada mais gratificante do q servir ao próximo …

Ano passado, confesso, tava mais satisfeita com o trabalho, tava mais concentrada, mais produtiva … este ano não tenho me sentido assim, acho q pq perdi um senhor pedaço do meu coração, neh … ainda tô reaprendendo a fazer tudo, a viver sem vc aqui, a aceitar o q a vida nos reserva, de bom ou nem tanto, a entender essa vida, esse mundão de meu deus e suas gentes e me entender um bocadinho mais tb …

Acho q nisso o trabalho tb ajuda, o contato com as outras pessoas, algumas muito afins, outras bem diferentes, ajuda a perceber melhor essa beleza q eh o ser humano como deus criou em toda sua diversidade … Daí q tb gosto muito dessa parte de atender artistas, público, fazer os agendamentos de ensaios pros grupos e ver o trabalho deles, acompanhar ainda q de leve algo do processo deles … tb quando é possível promover encontros entre eles, ou ver os encontros acontecerem, pela magia mesmo q tem a arte, a vida …

Acho uma pena q o movimento aqui ainda seja ínfimo, cada vez mais os espaços culturais parecem abandonados, esquecidos pelas pessoas … o q tb acho uma pena, por sentir q esse esquecimento tb tá dentro das pessoas, cada vez mais … cada vez mais as pessoas esquecidas de si mesmas … Fico tentando pensar em meios de atravessar isso, no q propor pra tentar gerar alguma mudança, transformação pequena q seja, nesse nosso trabalho de formiguinha cantadeira … mas ainda sinto o coração, a mente um tanto perturbados demais pelos ocorridos – familiares, pessoais, sociais – destes tempos … são tempos difíceis, estão sendo … e a gente tá precisando de muita força e muita luz aqui …

Espero q aí tb tu tenha força e luz pra encarar tua jornada, mãe, q tb não tá nada fácil … te amo muitão … tô com sds …

se cuida se, dona Mariêta …