Vozes da Funarte SP

Alexandre

 São Paulo, 16 de outubro de 2017.

Juliana,

Tudo bem? Como você está?

Aqui na Funarte, onde eu trabalho, começou neste mês uma programação com peças de teatro e de dança, e já teve um show de música – tudo pra crianças. Eu vou ficar bem contente se você vier um dia pra ver algum desses espetáculos. Por exemplo, pra assistir a uma dessas peças de teatro.

Teatro é uma coisa legal de se ver, como você já sabe; e deve ser ainda mais legal de se fazer, eu acho. Nunca fiz, mas, assistindo, parece ser muito divertido participar. Dizem que é como uma brincadeira – aliás, em inglês se usa a mesma palavra, to play, pra brincar e pra representar um papel no teatro, nos filmes etc. Sabe quando você está brincando com fantoches e, naquele momento, parece que não existe nada mais importante do que aquilo, no mundo? Não parece até que nem existe mais o mundo? Bom, deve ser assim, no teatro. Tipo uma brincadeira levada muito a sério, como deve ser toda brincadeira que se preze.

Tem gente que, mesmo depois de crescer, continua brincando dessa brincadeira séria ou de outras, como o desenho, a pintura, a música, a poesia, e dedica a vida inteira a isso. Ainda bem! Porque às vezes, principalmente depois que a gente cresce, a vida fica muito difícil, quase impossível, sem pelo menos um pouco desse tipo de brincadeira séria, que os adultos chamam de arte. Mesmo que a gente não a pratique, é importante demais ter algum contato com ela. (Isso é difícil de explicar direito agora, mas acho que um dia você vai entender.)

O meu trabalho tem um pouco a ver com isso. Um pouco, porque eu não sou artista, bem longe disso. Você já deve ter percebido que eu não levo o menor jeito, por exemplo, pra subir num palco de teatro. Pra cantar, desenhar e pintar, também não.  Então eu trabalho mais ou menos longe do palco, do microfone e dos pincéis, num escritório, cuidando de uma ou outra providência necessária pra que o resultado das brincadeiras dos outros seja mostrado nas galerias da Funarte.

Claro que é um trabalho menos legal do que o de quem faz a própria brincadeira. Mas, de qualquer jeito, é bom pelo menos ficar perto dela, saber que a gente dá uma pequena contribuição pra que a arte possa ser vista. Se você me perguntar se eu gosto de trabalhar aqui, digo que gosto. Mas sinto, às vezes, que não trabalho tão bem quanto deveria. Às vezes me perco, fico todo atrapalhado, feito uma barata tonta em meio a tanto papel, tanto telefonema, tanta coisa… É que, em lugares como esse, onde eu trabalho, eu acho que a pessoa tem que saber conversar, ser mais esperta, ter agilidade, saber fazer várias coisas ao mesmo tempo. A maioria dos meus colegas é assim, consegue trabalhar bastante e, aparentemente, também se divertir enquanto trabalha; eu ainda preciso aprender muito…

Ju, quando você vier à Funarte com o seu pai, a sua mãe e o Vítor, você vai reparar que, aqui por perto, tem muita gente se acomodando, descansando, dormindo nas calçadas. Pois é: por aqui, mais do que em outros lugares (mas não só por aqui), tem bastante gente que mora na rua. Isso é a coisa mais triste de trabalhar onde eu trabalho: ter que encarar quase todo dia essa realidade dura de entender. Como é possível existir algo assim é mais uma coisa que eu não vou saber explicar agora. Eu mesmo não entendo de verdade, então não posso explicar.

Mas acho que é também por causa de realidades como essa que a arte é tão importante, como eu disse antes. Bom, eu falei também que não ia conseguir explicar isso – e não vou mesmo! Estou tentando dar só um exemplo de uma parte da importância dessa brincadeira séria. Tem muito mais coisas a se dizer sobre ela que eu não sei, e nem caberiam nesta carta. Agora, o que posso afirmar com certeza é que a arte ajuda a enfrentar realidades feias como a que você vai ver no caminho, quando vier. Não porque a arte possa resolver esses problemas – ela não resolve, infelizmente –, mas porque ela ajuda a gente a respirar, apesar deles.

 Muitas vezes, no caminho para o trabalho, a gente está sem coragem de olhar para o lado e ver esse sofrimento, essa miséria toda, sabendo que a solução pra isso está tão longe e é tão difícil. Aí, a gente precisa se lembrar de que aqui tem as brincadeiras sérias da arte acontecendo, ou sendo preparadas. Quando a gente se lembra disso, o próximo passo em direção ao trabalho fica um pouco mais fácil.

Porque a gente sabe que em alguns momentos, em contato com essas brincadeiras, tudo, por alguns instantes, vai ter valido a pena. Esses momentos especiais não acontecem toda hora e não duram pra sempre; geralmente duram bem pouco tempo. Mas, como você sabe o que é uma boa brincadeira, daquelas pra valer, acho que você talvez entenda: apesar das minhas trapalhadas no trabalho, apesar das tristezas da vida e do que a gente vê no caminho, apesar de tudo, em alguns momentos, tudo vale a pena.

Espero que você venha qualquer dia, e me diga se valeu pra você ou não. Acredito que vai valer, e já estou vendo a sua carinha, sorrindo, dizendo que sim!

Beijos,

Alê